O que é uma história?

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Uma história é qualquer cadeia de eventos com um início, meio e fim, dizem os mais radicais. Nessa definição podemos incluir livros, peças, filmes, novelas, contos de fadas, videogames, notícias, fofocas e “causos”. Mas é importante perceber que ao retirar algo da realidade, plural e infinita, e delimita-la no tempo e no espaço através de nosso ponto de vista, estamos atribuindo para esta cadeia de eventos um significado. Mesmo que seja uma ação inconsciente, sempre que contamos uma história queremos dizer algo a mais com ela. Está ali, escondido nas entrelinhas. A história é uma tentativa de organizar e encontrar sentido à caótica realidade.

Kenneth Burke (1987-1993), um filósofo e teórico da literatura norte-americana, tem uma frase que sempre me chama muito a atenção. “As histórias são equipamentos para a vida”. Uma história, através de seu significado, nos arma de conhecimento cultural para enfrentar a vida. Lembra daquela frase “a arte imita a vida, a vida imita a arte”? Pois bem, uma história imita a vida a partir do momento em que utiliza a realidade como ponto de partida para a criação de uma cadeia de eventos com um significado, e nós imitamos a arte a partir do momento em que incorporamos o significado de uma história ao nosso modo de viver.

Para entender um pouco melhor o poder de uma história, precisamos ir até a Caverna de Chauvet, na França, onde está o registro mais antigo de pinturas rupestres. Nessas imagens de 30.000 anos atrás, vemos animais de diversas espécies, em posições estáticas ou que sugerem movimento. Era essencial para o ser humano da época representar o que havia fora da caverna. O mais interessante é que há pinturas com mais de 7.000 anos de diferença entre uma e outra. Provando que a tradição e instinto de “contar essas histórias” perdurou milênios. Qual era a função das 435 imagens desta caverna para seus habitantes? Contar sobre o que existia do lado de fora para as gerações mais jovens que aprendiam desde cedo sobre os encantos e perigos da vida.

Vamos dar um salto no tempo e parar na Grécia Antiga. Uma das civilizações mais avançadas da época que acreditava que os raios de uma tempestade eram lançados por Zeus, uma divindade, do alto do Monte Olimpo. Por que? Em todas as civilizações, sempre foi extremamente necessária dar um sentido para a realidade inexplicável. Fenômenos naturais eram explicados através de seres divinos, espíritos ou animais mitológicos que poderiam mudar de humor dependendo das ações dos humanos. Aí estavam os mitos, histórias simbólicas que procuravam explicar e demonstrar o que era a realidade. Os mitos tentam dar um sentido para a vida.

Aqui podemos utilizar um exemplo: o mito de Ícarus, um dos meus favoritos. Este mito é a história de um jovem que inventa um par de asas junto com seu pai, Dédalus, para fugir da ilha de Creta, onde vivia um perigoso Minotauro. Antes de partir, seu pai o aconselha a não voar perto do Sol, pois o calor pode derreter suas asas. Ignorando o pai, Ícarus tenta alcançar o Sol para vê-lo mais de perto, mas a cera que prendia suas asas se derrete e Ícarus despenca no mar e é engolido por Poseidon. Há muitas interpretações para este mito hoje em dia, mas um dos significados possíveis poderia ser: Não seja ambicioso, um mortal é um mortal. O Sol para os gregos era uma representação de Apolo, Deus da Juventude, Arte, Poesia, etc (os gregos sabiam aproveitar seus personagens). Ícarus acreditava que poderia se aproximar de um Deus, mas foi punido por seu “pecado”.

Joseph Campbell, um dos mais importantes estudiosos da mitologia e teologia (e você ainda vai ler muito o nome dele por aqui), tem um trecho em seu livro “O Herói de Mil Faces” que define bem a importância de um mito.

“(…) nem sequer teremos que correr os riscos da aventura sozinhos; pois os heróis de todos os tempos nos precederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

Uma pintura rupestre, um mito ou uma história são “equipamentos para a vida”. Seus símbolos, seus significados, “o que está nas entrelinhas” são pistas para encontrar o sentido da vida. Tudo isso me faz lembrar da “moral da história”, típica dos contos de fadas. Mas é isso mesmo. As histórias, desde o princípio, sugeriam um sentido, um modo de viver. Um modus operantis ao ser humano baseado no comum, no convencional e no certo. É preciso entender esse poder que uma história tem, o poder de nos dar uma direção, muitas vezes sem que a gente perceba. A “moral da história” é bem evidente, mas pense em quantos costumes nós temos que são provenientes de mitos, contos de fadas, fábulas, “causos”, fofocas, etc. Tenho uma tia que quando eu era criança, vivia me contando sobre o “homem do saco”. Curiosamente, ela sempre me contava essa história quando eu pedia para brincar na rua. Por que será?

Bom, como último parágrafo, queria trazer a reflexão para o trabalho do roteirista / contador de histórias e a responsabilidade em que temos nas mãos. Nosso dever não é só entreter nosso público. Sabemos que na mais banal história (Transformers, cof cof) estamos reproduzindo e repetindo séculos e séculos de “modus operantis”. Somos responsáveis pela manutenção de sentidos de vida através dos significados de nossa história. Temos que entender a dimensão e a importância disso. Se queremos mudar o mundo, precisamos quebrar alguns mitos/paradigmas e gerar novos (res)significados. Joseph Campbell (eu avisei) vê o mito na modernidade não como uma “busca de sentido”, mas como uma “experiência de sentido”. Já não é mais um moral, é uma possibilidade de modus operantis. Através do “mito” e de nossas histórias, experimentamos uma forma de viver que agrega à nossa alma o nosso potencial humano. Nos faz conhecer um pouquinho de nós mesmos e talvez, pouco a pouco, entrar em harmonia. Eu, como roteirista, sei que o que posso oferecer com minhas histórias é uma nova possibilidade de se experimentar a vida.

Material complementar para estudo:

  • Documentário “Caverna dos Sonhos Esquecidos”, de Werner Herzog
  • Livro “O Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell
  • Livro “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell

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Qualquer dúvida, sugestão ou crítica, pode ser enviada pelos comentários ou para o e-mail pedroriguetti@gmail.com. Obrigado pela atenção e nos vemos no próximo texto! Boa escrita!

 

 

Publicado por

pedroriguetti

Roteirista.

2 comentários em “O que é uma história?”

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